Lindo texto escrito por uma pessoa linda também! Um ensaio sobre relacionamentos que vale a pena ler. Da minha alma gêmea preta, Paulinha!
Lacuna
Numa conversa com amigos, dessas cujo objetivo é apenas entreter sem objetivo final, expus minha teoria sobre relacionamentos. Sim, essa é uma coisa que faço quando estou fiscalizando a natureza, ou melhor, fazendo nada – crio teorias. Pois bem, a teoria que apresentei a eles chama-se Lacuna. Acalme-se e acredite que até o fim desse texto você saberá do que se trata.
Quando duas pessoas se beijam, conversam e riem por uma ou duas noites está muito claro para eles e para o resto da sociedade que ficaram. Quando essa ficada fica mais séria, quando acontece um pedido e os familiares e amigos já os conhecem chama-se namoro. Mas agora vai a pergunta: qual será o nome daqueles dois, três e até quatro meses que duas pessoas passam juntas se beijando, transando e se divertindo? Seria um rolo, um test drive ou um caso? Sim, porque ficada não é mais?!
Ao ler o parágrafo anterior você pode ter se perguntando qual é a necessidade de deixar claro o que está rolando. Ah! Nesse momento você também já sabe que esse texto foi escrito por uma mulher. Afinal, apenas o sexo feminino e raros homens têm necessidade de deixar claro o que está acontecendo.
O problema da Lacuna é que normalmente gera confusão. Até porque dificilmente as pessoas saberão como lidar com algo que não tem nome. Na ficada, por exemplo, é sabido por todos que ele ou ela não ligará no dia seguinte. E mais, que pode beijar outra boca na sua frente sem que você se incomode. Já no namoro, SMS carinhosa, surpresa e outras coisinhas são desejadas, necessárias e ai daquele que não o fizer. É como se esse fulano estivesse indo contra a convenção, entende? A sociedade pune e ele deixa de ser “bom partido”.
Mas como devemos nos comportar na tal Lacuna? Devo convidar para sair, dizer que sinto saudade, ser fiel, dedicar música e cobrar tudo isso da outra parte envolvida? O que o outro vai pensar de mim se eu fizer essas coisas? Vai achar que sou louca e que me envolvi sozinha num relacionamento ou é exatamente isso que espera de mim? Nesse momento, provavelmente, a pessoa prática e bem resolvida que começou a ler o texto há alguns minutos está dando espaço para a dúvida e para a catarse.
Eu, realmente, acho que a sociedade precisa criar um nome e regras para esse espaço inominável. Assim a gente equilibra a expectativa dos envolvidos. O que não dá mais é para homens e mulheres, principalmente elas, passarem horas de seu dia refletindo sobre como agir. Pensei em batizar esse período de Permanecer. Afinal, é verbo de ligação como o ficar, e dura mais tempo. Faz sentido para mim, mas prefiro contar com a criatividade de vocês.
Ah! Já ia esquecendo, como é que se termina um relacionamento sem nome, sem regras e que teoricamente não é sério? Complexo, né.
Ana Paula Castro