Artigo escrito para a edição eletrônica do jornal Redes Educativas e Currículos Locais. Pingo é Letra!
A FORMA E O TEMPO VAGO. AS FORMAS E OS TEMPOS VAGOS.
Talvez uma das memórias mais marcantes de meus tempos de escola seja a de meu primeiro dia de aula no Colégio Pedro II, Unidade Engenho Novo II. Eu estava começando a 5ª série, vinha de uma escola que tinha 50 alunos apenas, e cujas paredes eram proporcionais à pequenez numérica de seus freqüentadores. No entanto, a Escola Nossa Senhora de Fátima, localizada em uma ladeira no pé do Morro dos Cabritos, me ensinara que, estando eu lá, haveria uma professora pra me dizer o que fazer. Estando eu lá, tinha que subir, sentar, rezar a Ave Maria e começar a aula.
Até então, pode-se dizer que quem orientava meus passos acadêmicos era uma Santa – dali em diante, seria ninguém menos que o segundo imperador do Brasil. E ao chegar ao colégio, já tão diferente por ser a uma hora e meia de ônibus da minha casa – até o Nossa Senhora de Fátima eram só dez minutos caminhando – notei que todos se dirigiam à quadra, em vez de à sala. Fui. Afinal, quem era eu pra contestar uma galáxia quando mal tinha saído do meu planeta primário? Rapidamente, entendi que havia filas por série/turma e que, em cada fila, havia uma ordem de formatura: o tal número de chamada!
Que número de chamada?? Isso não existia na minha antiga turma de doze colegas; mas era realidade na de quarenta e tantos alunos – e falo só da turma 504. Meu número, meu primeiro número de chamada, era o dezenove. Ufa. Data de aniversário, fácil de guardar. Cantamos o Hino Nacional e, à medida que saíamos da quadra, já começava o murmurinho: é tempo vago, é tempo vago.
Eu não tinha nem a mais vaga idéia do que era um tempo vago. Quando perguntei aonde ir, me responderam com aquela informação redundante: é tempo vago! Pronto: parei e não fui a lugar algum. Não sabia o que era, mas isso não deveria ser na sala de aula – ninguém estava indo pra lá.
Mais tarde, lendo todos os murais do colégio, como um novo espécime em uma brava empreitada pela adaptação ao meio, descobri, finalmente, que meus dias seriam divididos em tempos e que cada tempo seria usado para uma disciplina; às vezes, imaginem, seriam dois tempos com o mesmo professor! Eureka! Quando não tivesse aula daquela disciplina, era tempo vago!
O exigente leitor pensará neste momento: quatro parágrafos pra contar esta historinha tão simplória? O ousado escritor dirá: sim. Simplória pra quem nunca passou o aperto de não saber o que é um tempo vago – breve período que, anos mais tarde, seria tão cobiçado e comemorado quanto um fim-de-semana!
Daí por diante, foram muitas as descobertas: biblioteca, laboratório, semana cultural, xadrez, jornal mural, jornal do grêmio, jornal-jornal mesmo! Sala de música, sala de línguas e – como evitar? – até a sala da disciplina. Tudo fez parte da transformação de um menino inseguro de dez anos de idade em um jovem ousado e por vezes até bastante pretensioso, que resolveu encarar uma faculdade de Letras já sabendo que tempos vagos seriam tão escassos quanto os botões de seu uniforme branco, quase sempre adornado pelo emblema que ilustra este artigo.
Não posso me queixar de nada. Fui de uma escola pequena e boa a um grande e excelente colégio. Naquela, aprendi a simplicidade das relações humanas e a importância da individualidade. Neste, a complexidade da convivência e os incessantes movimentos de cessão e/ou reafirmação de idéias.
No meio disso, uma vida repleta de tempos. Tempos rebeldes e dourados. Uns tantos vagos e outros muito bem ocupados.